Aguarde uns segundos que os elementos de imagem e de som se implantem

------Quando cheguei ao Parque Nascente, em primeira visita na companhia de Nelson Duarte e esposa, pela dimensão e movimento na área destinada ao estacionamento de viaturas, desde logo percebi que se me iria deparar um grande e concorrido aglomerado comercial, algo de nível enquadrado na Europa que pretende lograr o terceiro milénio com o sonho embalado entre mãos.
------Por amplos e bem iluminados espaços, escadas rolantes e montras exibindo de tudo, assim que ascendi ao que me pareceu ser um segundo-piso, constatei que tinha perdido por completo o sentido de orientação que inicialmente procurei memorizar. Limitei-me por isso a seguir sem mais o casal Duarte, à direita e à esquerda saudado por habituais frequentadores daquele enorme recinto. Como gostaria de ter sido filmado para depois apreciar em pormenor a expontânea figurinha de pacóvio que fiz, caçado por inopinado deslumbre aos 69 anos de idade. Que lindo!...



------Mais a menos a meio de uma álea com cerca de 150 metros e estabelecimentos de um lado e de outro, enquanto o Nelson foi cumprimentar os guitarristas que já afinavam os instrumentos e o som, eu e a Detinha sentámo-nos a uma mesa encostada a um pequeno palco, diante de algumas dezenas de pessoas que jantavam e aguardavam o espectáculo. De imediato me interroguei como é que o Fado poderia ser ali ouvido entre tamanho burburinho e contínuo trânsito de pessoas.

------Daí a pouco, como se o Fado tivesse enviado grande parte dos fadistas portuenses às compras, começaram a aparecer, uns atrás dos outros, alguns conhecidos intérpretes e aficionados do rigoroso à luz de vela, o que mais ainda me colocou em expectativa e curiosidade sobre o modelo do evento que ali iria ter lugar. Um deles, em simpático tráfico improvisado, ofereceu-me em dois sucessivos lances dois oportunos whiskys caídos do céu.

------ Logo que o Nelson e a Sílvia Raquel, convidada especial do programa, entraram em ensaio para acerto efectivo de tons, também o público encheu por completo as mesas disponíveis e amontuou-se de pé em redor da cena, bloqueando a álea, transformada num ápice num aconchegado e aprazível teatro. - Apre - cogitei suepreendido mais uma vez - do que o Fado é capaz!...

------Nunca ao vivo e submetido à improbabilidade das circunstâncias tinha apreciado a execução musical de Mário Henriques. Apenas através do propagado fala-fala havia absorvido as habituais certezas embrulhadas em dúvida. Os primeiros três fados que Nelson Duarte interpretou, demonstraram-me que a minha agenda não estava deveras em dia. Mário Henriques, em primorosa excelência, deu-me ideia de que as notas tinham asas e esvoaçavam harmoniosas em todos os tímpanos. Os olhos da assistência davam o sinal irmanante de acordo tácito: todos estavam a fruir o Fado no mesmo diapasão e o Nelson foi tenaz a sustentar-lhe o empolgamento.

------ Após um brevíssimo intervalo, que os inveterados fumadores aproveitaram para matar o vício em lugar legal ao fundo da álea - e eu entre eles - a Sílvia Raquel abriu a segunda-parte do espectáculo e enterneceu a amantíssima fadistagem com três bonitas interpretações. Não sei se terá sido o primeiro sério teste que a Sílvia experimentou sob o sereníssimo fogo das almas em chama aberta. A luz dos olhares transmitiam-me a convicção de que toda a gente estava a gostar.

------Tomando os pedais ao aprazível convívio, o Nelson, fado após fado, homem de festa total, acabou a suar com a assistência a pedir-lhe bis-mais-bis: « Ah, fadista, és a pantera do fado...». E que esplêndido Fado foi ao morrer do dia para se internar na aquietada noite do Parque Nascente.

------ No momento em que escrevo, ainda algo diluído nas emoções recolhidas, não fui capaz de prender o nome do parceiro de Mário Henriques no impecável dedilhado de acompanhamento que executou em guitarra clássica. Também ninguém deu por isso, nem o Fado, genuína emanação da alma portuguesa. = 4.2.2008 - TdG



Portal do Fado